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Conselho Federal de Psicologia reconhece hipnose como terapia auxiliar

por rroeditor — última modificação 19/05/2008 20h43
Antigamente associada ao misticismo e aos shows de circo, a prática hoje é reconhecida como terapia auxiliar por diversas áreas, como a psicologia.

Publicado em 19/05/2008 20h43

Última atualização em 19/05/2008 20h43

Conselho Federal de Psicologia reconhece hipnose como terapia auxiliar
Na aparência, nada difere um psicanalista comum de um hipnoterapeuta como Eduardo Garcia - Foto: Bruno Galhardi

BRUNO GALHARDI
TANIA GOMES

"Você está com sono, muito sono". Quem consegue não associar estar palavras à prática da hipnose? Normalmente usadas junto com um relógio que contribui com o seu tique-taque para que a pessoa entre em um estado de transe e assim faça tudo o que o “mestre” mandar, a cena ficou famosa por conta do fascínio que a prática desperta nas pessoas. Mas a verdade é que nem todo mundo tem a real noção do que se trata a hipnose.

“A hipnose foi muito utilizada sem a pesquisa. Percebia-se que ela acontecia, mas ninguém sabia explicar como. Daí surgiram as aplicações primitivas, como esses shows de circo, cujo único objetivo era o entretenimento. Essa prática é conhecida como hipnose clássica, e pode causar alguns danos, além de expor a pessoa ao ridículo”, explica o psicólogo e hipnoterapeuta Eduardo Garcia, que trabalha na clínica Equilibrium, em Santo André.

No ano 2000, com uma resolução do Conselho Federal de Psicologia, a hipnose foi reconhecida como terapia auxiliar. A prática, entretanto, só é aceita para profissionais capacitados. “O Conselho [de Psicologia] aceita a hipnose, desde que o psicólogo tenha feito alguma capacitação nessa área. O problema é que ainda não há uma regulamentação específica para essas capacitações, como o número de horas ou o conteúdo dos cursos”, comenta Garcia. “Nesse ponto, cabe ao paciente procurar um especialista com uma boa formação”.

Problemas como ansiedade, depressão, traumas, fobias, e até vícios, como o tabagismo, podem ser atenuados ou mesmo eliminados com o auxílio da hipnose, defendem os especialistas. Mas como toda terapia auxiliar, nem sempre ela é a mais indicada em alguns casos. Por isso, para a indução à hipnose, o especialista deve primeiro fazer uma avaliação do paciente para só então definir uma forma de condução das sessões, como explica Paulo Madjarof Filho, psicólogo-clínico, de São Bernardo, que já defendeu dissertação de Mestrado sobre os efeitos da hipnose sobre a memória e concentração. “O psicólogo capacitado conduzirá a experiência de acordo com a necessidade do paciente. E o processo de indução explora os canais sensoriais, em especial a visão e a audição”, explica Paulo.

Maria Aparecida de Fátima Borges fez hipnoterapia, como é conhecida a terapia por meio da hipnose, por quatro anos e diz que se surpreendeu com a técnica. “A opinião que tinha sobre a hipnose é de que era um espetáculo porque o que eu conhecia sobre isso era a de ver uma pessoa no palco fazendo graças com a platéia. Mas depois de experimentar percebi o quanto ela é séria, ela te conduz até um determinado caminho depois quem faz o caminho é você”, lembra.

Por meio de técnicas de relaxamento, ela afirma que, além de ter um amadurecimento emocional e psicológico muito importante ainda viu seu problema ser resolvido com mais rapidez. “A hipnoterapia encurta o caminho da terapia comum porque com a hipnose você encontra o que procura por você mesma. Você viaja no espaço e tempo e busca o seu problema no foco”, conclui Maria Aparecida.

Como funciona - Pessoas totalmente relaxadas, submissas ou até mesmo anestesiadas são situações geralmente associadas aos shows de hipnose. O psicólogo Eduardo Garcia garante que é possível atingir esses estados por meio da hipnose. “A grande diferença é que, na hipnoterapia, utilizamos esses recursos em favor da pessoa, na eliminação de algum trauma, fobia, ou estado que prejudique a vida dela”, explica.

O que parece mágica, explica Garcia, tem fundamentos científicos. “Há três estados básicos na hipnoterapia”, diz. “O relaxamento, o transe e a hipnose. No primeiro, o objetivo é relaxar o corpo para ampliar a atividade mental. No segundo, já há um foco em um determinado objetivo mental, que faz com que a pessoa se concentre apenas em um pensamento. Com o aumento da intensidade desse foco mental, a pessoa atinge a hipnose, que são alguns fenômenos mentais conhecidos, como a amnésia [perda de memória], a analgesia [ausência de dor física], dentre outros”. Para atingir esse estado, o hipnoterapeuta pode utilizar alguns recursos. O famoso pêndulo? “Pode ser. Essa é a hipnose clássica. Com o pêndulo, você está focando o pensamento do paciente”, justifica Garcia. “Entretanto, são práticas empíricas, que nem sempre funcionam com todos. Na hipnose moderna, outras técnicas são usadas na indução ao estado hipnótico. A leitura de uma poesia, por exemplo, pode ser utilizada com sucesso. Seja qual for a técnica, o importante é promover a confiança da pessoa no terapeuta, e direcionar os pensamentos dela para um foco específico”, revela.

Para uma das pacientes de Garcia, que não quis se identificar, o foco proporcionado pela hipnoterapia tem vantagens. “Em uma sessão de terapia sem o uso da hipnose, ficamos mais na defensiva, pensando mais no que vamos falar e até mesmo bloqueando alguns tipos de pensamento. Com a hipnose, tudo flui de forma mais tranqüila e clara, eu me desligava do ambiente externo e conseguia me concentrar somente em mim, em minhas sensações, sentimentos e pensamentos”, comenta.

Regressão e vidas passadas - Um dos temas mais polêmicos envolvendo a hipnoterapia é a sua utilização para descobrir supostas “vidas passadas” em um processo conhecido como “regressão”. “Algumas pessoas procuram a hipnose especificamente para isso”, comenta o psicólogo Eduardo Garcia.

De acordo com o hipnoterapeuta, o fenômeno de pacientes que relembram acontecimentos de “vidas passadas” não é incomum durante as sessões de terapia. “O hipocampo, que é a área do cérebro responsável pela memória, é a mesma da imaginação. Então não é possível afirmar, nesses casos, se a pessoa está se lembrando de algo ou está imaginando situações e fatos”.

Vale, nesses casos, a ética da profissão. “Quando a pessoa me procura somente por curiosidade de “saber sobre as vidas passadas”, eu não faço. Porque seria anti-ético, já que a hipnose e a psicologia como ciência não podem garantir que as supostas lembranças de vidas passadas são reais ou somente fruto da imaginação. Mas, se elas têm um problema, e crêem em vidas passadas, pode ser um bom caminho para solucioná-lo através da hipnoterapia. É importante sempre considerar as crenças, sejam elas políticas, filosóficas ou religiosas, do paciente, e trabalhar com elas em favor do tratamento pela hipnose”, finaliza.

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