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Transtorno Bipolar: muito além da mudança brusca de humor

por cienciaesaude — última modificação 30/04/2008 15:09
Muitas pessoas sofrem com mudanças repentinas de humor e comportamento, prejudicando o convívio social, familiar e, principalmente, pessoal, já que os portadores do transtorno bipolar não conseguem entender a si mesmos.

Publicado em 30/04/2008 15:09
Última atualização às 15:09

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Transtorno Bipolar: muito além da mudança brusca de humor

O transtorno bipolar alterna fases de euforia e depressão - Foto/Montagem: Adriana Félix

ADRIANA FELIX
KAREM MOGNON

Instabilidade. Esta é a palavra mais freqüente na vida de E.V., moradora de São Bernardo “Eu nunca sei como vou estar amanhã, nem como vou relacionar as coisas. Posso tentar me acalmar e contar até dez, mas basta que uma coisa mínima não dê certo que eu perco o controle da situação. Sofremos por nada e rimos por nada também”.

E.V. tem 20 anos, é professora e sofre de transtorno bipolar (TB). Ela descobriu que tem a doença há cinco anos, durante uma crise em que quase cortou os pulsos. Durante muito tempo, o Transtorno Bipolar era conhecido pelo nome de psicose maníaco-depressiva, uma doença psiquiátrica caracterizada por alternância de fases de depressão e de hiperexcitabilidade.

De acordo com a psicóloga Stella Maris Colonato, de Santo André, o transtorno bipolar é caracterizado por dois ou mais episódios, nos quais o humor e o nível de atividade do sujeito estão profundamente perturbados. “Esse distúrbio consiste, em algumas ocasiões, na elevação do humor e no aumento da energia e da atividade, e, em outras, no rebaixamento do humor e na redução da energia e da atividade”.

Essas mudanças de humor e atitudes são freqüentes para E.V., que tem sua vida social abalada. "Fica tremendamente difícil se relacionar com as pessoas. Perdi amigos por minhas mudanças súbitas de humor. E na hora de ir a festas, é uma tortura, porque é algo muito complicado começar a conversar com alguém ou conhecer gente nova. Parece que temos uma aura que afasta todo mundo”.

Assim como ela, E.S., 25, terapeuta alternativa de São Paulo, descobriu a doença depois de uma crise forte de depressão. Ela também sofreu e sofre com essas mudanças bruscas de comportamento, contudo, isso acontece há muito tempo. “Desde criança apresentei problemas de comportamento na escola e no dia-a-dia. Nunca tive amigos que durassem mais que um mês, sentia agressividade e oscilava muito de humor. Passei toda  a adolescência com depressão e era uma pessoa extremamente sensível. Quando cheguei aos 19 anos, tive euforia, gastei muito dinheiro, sujei meu nome e até roubava dinheiro dos meus pais para ter como suprir a minha compulsão. Larguei a faculdade pela metade, comecei outra e nem fui assistir às aulas, esqueci de trancar...”.

O transtorno bipolar atinge pessoas de todas as idades. Segundo Stella Colonato, tanto crianças como adolescentes podem vir a apresentar a doença, mas o distúrbio tende a afetar crianças de pais que já são portadores. No entanto, a identificação é difícil. “Pode ser difícil diferenciar o transtorno bipolar em crianças e adolescentes de outros problemas que ocorrem nessas faixas etárias. Por exemplo, embora caracterizem o transtorno bipolar, a irritabilidade e a agressividade também podem ser indícios de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de conduta, de oposição e desafio ou outros tipos de transtornos mentais mais comuns em adultos, como a depressão e a esquizofrenia. O abuso de drogas também pode causar esses sintomas”, diz a psicóloga.

Ainda de acordo com Stela, a solução para esse problema está em um diagnóstico apropriado. “Crianças ou adolescentes com sintomas emocionais e comportamentais devem ser cuidadosamente avaliadas por um profissional de saúde mental. Qualquer paciente que tenha tendências suicidas, fale em suicídio ou tente o suicídio deve ser levada a sério e receber ajuda imediata de um especialista”.

Os danos na vida social vão além da falta de amigos, pois a família está diretamente ligada às vítimas e acaba participando de todo esse processo. Foi o que aconteceu com a família de E.S. “Quando estou em crise eu os machuco muito, eles sofrem comigo. Meu pai sofre muito de me ver assim, às vezes diz que é tudo culpa dele, meu irmão queria poder ajudar. Depois de muita terapia da família inteira, conseguimos nos entender”. Apesar de todos os problemas, ela afirma que eles nunca a abandonaram e, quando possível, a acompanham aos médicos e sempre estão envolvidos em tentar ajudar com o máximo que podem.

A psicóloga Stela ressalta a importância da família no tratamento. “As famílias devem fazer parte do tratamento quando possível, pois se observa maior dificuldade de melhora quando se trata a criança ou adolescente isoladamente”.

O número de mortes de pacientes portadores de TB é bastante expressivo, principalmente entre jovens, tendo como principal causa o suicídio. Segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), até 50% dos portadores tentam o suicídio ao menos uma vez em suas vidas e 15% efetivamente o cometem.

E.S., além dos problemas causados pela bipolaridade, se envolveu em um relacionamento complicado, no qual agravou ainda mais sua doença, chegando ao ponto de tentar se suicidar. “Arrumei um relacionamento muito doentio, no qual fiquei três anos com essa pessoa, tentei suicídio com remédios, sai de casa, depois voltei e quebrava o que via pela frente. Tive anorexia e aconteceu uma série de coisas que acrescentaram muitos traumas. Quando terminou, eu fiquei numa depressão profunda e rapidamente cheguei a pesar 39 quilos”.

O tratamento - Assim como várias doenças, o transtorno bipolar tem tratamento, apesar de não ter cura. A psicóloga Stella Colonato afirma que a terapia pode levar a pessoa a ter uma vida normal ou, pelo menos, muito próxima do normal. “Isso geralmente só depende da adesão do paciente e das mudanças no estilo de vida que ele tiver de fazer”, explica.

E.S. faz todos os tipos de terapia alternativa para ajudar a minimizar ainda mais o problema, além de tomar o remédio que o médico define ser o melhor. “Eu já tomei quase tudo que existe de fármaco, mas meu corpo tem uma certa resistência em aceitar. Hoje, tomo medicamentos e participo de estudos dentro de um hospital de psiquiatria”. E.V. tomava  Ácido Valproico e Rivotril. Fez algumas sessões de terapia, mas não gostou e parou. “Agora vou recomeçar o tratamento, já que li muito sobre o assunto e estou mais informada do que tempos atrás”.

Segundo o site da ABTB, o tratamento adequado do transtorno bipolar reduz a incapacitação e a mortalidade dos portadores. Em linhas gerais, inclui necessariamente a prescrição de um ou mais estabilizadores do humor em associação (carbonato de lítio, ácido valpróico/valproato de sódio/divalproato de sódio, lamotrigina, carbamazepina, oxcarbazepina). A associação de antidepressivos (de diferentes classes) e de antipsicóticos (em especial os de segunda geração como risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol) pode ser necessária para o controle de episódios de depressão e de mania.

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