Cachorros agitam mercado de luxo
O ABC, no entanto, registra escassez de pet shops especializados em artigos e serviços para a classe A
Pet shops de luxo vendem perfumes para cães, xampu e cremes importados, guia de Swarovski e roupa de linho - Foto: Beatriz Ferrugia/RRJ
ALINE BRAGA e BEATRIZ FARRUGIA
do Rudge Ramos Jornal
Roupa de grife, esmalte, chapinha, hidratação, alisamento e acupuntura. Estes artigos e serviços, hoje em dia, fazem parte da rotina não só de muitas pessoas, mas de cachorros também.
Para satisfazer esse “público”, existem aproximadamente 45 mil pet shops espalhados pelo país, que movimentam, por ano, R$ 9 bilhões, com projeções de crescimento de 3% a 7% até o final de 2010.
Mas a verdadeira mina de ouro do setor está nos pet shops de luxo, que atendem os 5% da população brasileira com renda acima de R$ 4.951 mensais. Ou seja, a classe A, que costuma gastar três vezes mais que as classes B e C. Neste contexto, é claro que os gastos com seus cães não poderiam ser diferentes.
O preço dos artigos vendidos em pet shops para a classe A pode ser até 772% mais caro que nos estabelecimentos comuns. Uma guia (cordinha que se prende na coleira para levar o animal para passear), por exemplo, custa cerca de R$ 9 em lojas simples, mas é possível encontrar guias de R$ 695 feitas de cristais Swarovski, que possuem até certificado de legitimidade, em estabelecimentos de luxo.
“É difícil selecionar produtos para esse público. Eles procuram um diferencial, qualidade, mas não inovam muito. Inova assim, usando uma coleira de Swarovski, mas eles não gostam de tintura [em pelo] etc. Sair com um poodle azul é brega. O chique é básico”, explicou Ghislaine Ferreira, gerente do pet shop Filhotes & Fricotes, localizado no shopping Iguatemi, em São Paulo.
Segundo ela, os artigos vendidos na loja tentam “seguir a decoração da casa” de cada cliente. Tanto as roupas quanto as casas que mais vendem são as de cores neutras, como bege, cinza, azul claro e verde, sem estampas chamativas.
Mas há poucos itens no Brasil para a ‘classe AAA’. “A maioria vem de fora. Hoje, o que dá para comprar no Brasil é xampu e acessórios”, acrescentou Ghislaine, destacando que existem produtos de banho especializados para cada raça.
Em média, cada xampu custa R$ 80 nos pet shops de luxo, enquanto os cremes hidratantes variam de R$ 80 a R$ 200, sem contar o valor da aplicação. Já em estabelecimentos comuns, é possível encontrar produtos de banho por R$ 10 ou R$ 30.
Achou um absurdo? Então fique sabendo que no mercado ainda há perfumes franceses para cachorro, por R$ 140, e biscoitinhos criados por chefes de cozinha, que saem até R$ 50 a embalagem com 350 g.
“Estes produtos diversificam, mas não superam os itens básicos como ração, acessórios e medicamentos”, relatou a proprietária do Encrenquinha´s Pet Shop, Bárbara Cintra.
De acordo com a Anfalpet (Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos para Animais de Estimação), no Brasil há 33 milhões de cães, o que equivalente a 1,5 cachorro por residência. Esse número faz o país ser o segundo no ranking de animais domésticos (o primeiro são os Estados Unidos).
O ABC, no entanto, não possui pet shops de luxo de grande porte, apesar de alguns bairros serem habitados majoritariamente pela classe A.
“Nós recebemos muitas pessoas do ABC. Ainda faltam lojas do tipo para atender a região”, afirmou a gerente do Filhotes & Fricotes, Ghislaine Ferreira, que mora em São Caetano.
Os proprietários de lojas do setor estimam que para abrir um pet shop destinado ao público classe A seja necessário um investimento de, no mínimo, R$ 10 mil. Desse valor, metade tem como finalidade os custos básicos de equipamentos (ferramentas, prateleiras, secadores, chuveiros, telefone, computador, fax etc.) e os outros 50% para capital de giro.
“Um salão de estética pet completo envolve um investimento que vai de R$ 10 mil, o mais simples, até R$ 50 mil, o mais completo. Mas, quando se fala em luxo, não há limite. Eu já acompanhei empreendedores que gastaram R$ 80 mil só para reformar o imóvel”, contou Enio Rodrigues, da Unipet (Universidade Pet Shop).
O casal Marta e Alexandre Torres, que vive no bairro Jardim, em Santo André, não poupa esforços para mimar a cadelinha Lia, uma Lhasa Apso de pequeno porte. Na última visita ao pet shop, localizado em São Paulo, eles gastaram cerca de R$ 250 em três roupinhas de inverno.
“A gente não tem filho. A Lia é como nossa filha e tentamos dar o melhor para ela. Hoje, tudo que tem para seres humanos, tem para cachorros, e adoramos isso. Ela fica cada vez mais parecida com a gente”, disse Marta.
O casal estima que gasta, por mês, cerca de R$ 450 em cuidados básicos de Lia (ração e banho e tosa uma vez por semana). Já um cachorro comum, do mesmo porte da cadela do casal, custa, no mínimo, R$ 120 por mês, em ração e serviços de banho e tosa a cada 15 dias.


