Você está aqui: Página Inicial / Rudge Ramos Jornal / 2010 / ED 951 / Tecnologia ajuda leitura para cegos

Tecnologia ajuda leitura para cegos

por erik.paulussi — última modificação 01/10/2010 09h55
Áudiolivros substituem o Braille na hora de ajudar os deficientes visuais

Publicado em 01/10/2010 08h50

Última atualização em 01/10/2010 09h55

ALINE MARQUES
CYNTHIA TAVARES
NICOLE BRIONES
do Rudge Ramos Jornal


No próximo dia 8 de outubro, é comemorado o Dia Mundial da Visão. Segundo levantamento realizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o mundo registrava aproximadamente 45 milhões de pessoas cegas em 2009. Uma parcela da população que aprendeu a construir com auxílio dos outros quatro sentidos – audição, olfato, paladar e tato – o conhecimento do mundo.

O conceito da inclusão foi trabalhado ao longo dos anos como forma de preencher a lacuna da deficiência vivida por estas pessoas. E que forma melhor de aprendeer o mundo senão pela leitura? No Brasil, iniciativas como a da Fundação Dorina Nowill torna o universo da literatura acessível aos que não poderiam ler pelos métodos tradicionais.

Fundada pela pedagoga Dorina Nowill (1919-2010), em 1946, a fundação para cegos se tornou referência no país quando o assunto é acessibilidade e inclusão de deficientes visuais. Um dos principais trabalhos desenvolvidos pela instituição é a produção e distribuição de livros em Braille e em áudio. A ação já permitiu a alfabetização de milhares de cegos no Brasil. De acordo com a administração do instituto, existem hoje cerca de 2,5 mil usuários cadastrados que utilizam do seu acervo literário. “A biblioteca é circulante e empresta livros para o Brasil todo”, explicou a gerente de distribuição da Fundação Dorina Nowill, Suzi Maluf.

Suzi acredita que com a evolução digital e interativa, o alcance da leitura para deficientes visuais se tornou ainda maior. O pioneiro sistema de leitura para cegos, viabilizado pelo sistema tátil criado pelo francês Louis Braille, vem sendo aliado aos áudiolivros. “Produzíamos livros em braile e decidimos investir nos livros falados. Hoje, temos um acervo de mais de 1,5 mil livros falados, todos em arquivo digital”, destacou a gerente.

Estima-se que os usuários do arquivo da Fundação Dorina Nowill, leiam nove livros por ano. A realidade é bem diferente quando se trata dos leitores de livros tradicionais. Segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. “Eles (deficientes visuais) leem bastante, com facilidade. Muito acima da média da população. Dando oportunidades, aproveitam muito mais do que quem tem acesso à leitura tradicional”, avaliou Suzi Maluf.

Leitores - A bibliotecária Andréa Yuki, 38, perdeu a visão ainda criança, devido a um câncer na retina, conhecido como retinoblastoma. Há 14 anos, Andréa atua como revisora de livros em Braille e edição de áudiolivros. “Seria bacana você chegar em uma banca de jornal ou livraria e ler tudo que tem vontade. Só que acabamos tendo acesso apenas aos mais vendidos. E aqueles livros que a gente não conhece e quer conhecer?”, questiona.

Andréa busca realizar esse desejo diariamente. A bibliotecária participa de fóruns de discussão na web, para receber listas de livros procurados pelo público cego e disponibilizá-los, por gêneros. Segundo ela, áudiolivros são ideais para a narração de romances, enquanto o Braille se consolidou na área da leitura didática. “Eu tento ler de tudo, mas gosto muito de romances ingleses e de literatura brasileira. Entre as obras mais procuradas, os best-sellers sempre ficam no topo da lista. Livros de auto-ajuda e religiosos também são buscados pelo público cego.”

Estas edições auxiliam milhares de deficientes visuais a construírem sua visão de mundo, além de agregar conhecimento e cultura. 

O radialista Antônio Carlos de Frias, 62, é cego desde os oito meses de vida, quando sofreu um acidente doméstico e teve as vistas atingidas por amoníaco. Ele conta que sempre teve apreço pela leitura, em especial pelo método Braille. O radialista é assinante de revistas em Braille, disponibilizadas pelo Instituto Benjamin Constant, instituição pioneira para cegos no Brasil, criada ainda na época de D. Pedro II. “O Braille é insubstituível, é por meio dele que sinto as palavras, conforme meu ritmo”, avaliou. Segundo Frias, apesar das inovações, os locutores de áudiolivros nem sempre acompanham o ritmo de leitura dos ouvintes, o que privilegia o método tátil.

Já o aposentado Reginaldo Luiz Marques, 50, cego há 35 anos devido a uma complicação ocasionada pela diabetes, acredita que o Braille seja um método cada vez mais obsoleto. “A tecnologia oferece muitos avanços em alternativas de leituras, substituindo o Braille”, afirmou. O aposentado é usuário assíduo do acervo de Dorina Nowill. “A produção de áudiolivros melhorou muito nos últimos dez anos. Hoje em dia, os estudantes cegos ingressam na faculdade com igualdade, graças a essas tecnologias que os tornam mais independentes”.

Ações do documento