Lixo eletrônico: cuidados no descarte e na reciclagem

Anualmente, os lixões de todo o mundo recebem 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico

Publicado em 22/06/2011 09:35
Última atualização às 10:34

Lixo eletrônico: cuidados no descarte e na reciclagem

Baterias têm substâncias radioativas e devem ser descartadas de maneira adequada - Foto: Danielle Feltrin

MARINA MACIEL
Do Rudge Ramos Jornal*

Uma geladeira que já não gela mais, um telefone celular que não funciona, a CPU do computador que queimou, uma pilha velha do controle remoto da televisão que acabou. Todos esses aparelhos têm um destino quase certo: o lixo. Os lixões de todo o mundo recebem, anualmente, 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico – e com elas, substâncias de alto teor tóxico, como chumbo e mercúrio.

O Brasil caminha no mesmo rumo dos países desenvolvidos na troca acelerada de produtos eletrônicos pelas
novidades do mercado. Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) de 2010, o país é o que gera maior volume de resíduos digitais por ano: cada brasileiro produz aproximadamente meio quilo – quantidade superior, por exemplo, à da China e da Índia. Essa troca se dá de forma mais acelerada nos países desenvolvidos.

E-lixo é o apelido dado aos produtos eletrônicos (como celulares, computadores, televisores
etc.) que são descartados. Esse tipo de resíduo, hoje, compõe a produção em maior escala – e de mais rápido
crescimento – no mundo, devido ao “boom” tecnológico que se desencadeou nas últimas décadas.

Exemplo disso é um dado do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios): 84,3% da população brasileira tinham pelo menos um telefone celular em 2009.

“Recebemos entre 100 e 400 aparelhos por semana”, contou Mariana Brizotto, uma das fundadoras da Idéia Verde, empresa de Santo André de coleta de lixo eletrônico. “Muitos aparelhos que chegam para a desmontagem ainda estão funcionando”, disse.

Um celular hoje é fácil de ser quebrado, difícil de ser consertado, e não compensa ser arrumado, principalmente,
por causa do baixo preço do aparelho. O especialista em Direito Ambiental Paulo Briastoli completa: “por isso a vida útil dos produtos é de curta duração, para que a demanda não deixe de existir.”

Ou seja, a alternativa mais fácil é a compra de um novo produto – o que gera mais lixo eletrônico. “É uma estratégia comercial da empresa, que faz com que a indústria se mantenha atuante no mercado”,
explicou Briastoli.

Riscos-O problema do e-lixo é que a maioria dos produtos contém grande quantidade de substâncias tóxicas, como mercúrio, chumbo e cádmio, que, se manipuladas de forma incorreta, causam danos irreparáveis ao meio ambiente ou a própria segurança das pessoas.

O engenheiro Deiglys Monteiro aponta que os monitores de computador e de TV apresentam perigo de implosão. “Se o vidro for quebrado de maneira brusca, uma grande quantidade de ar irá entrar no tubo de imagem. Isso pode fazer com que o vidro se estilhace e seja lançado para fora”, explicou.

Para garantir a segurança ao desmontá-los durante o trabalho, Monteiro reforça que é necessário o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como óculos, luvas e protetores auriculares.

“E-Reciclagem”- Apesar dos riscos que representa ao meio ambiente e à saúde, o e-lixo também gera oportunidade para quem trabalha com reciclagem.

A Associação Refazendo, em São Bernardo, foi fundada depois da desativação do lixão do Alvarenga, há 10 anos. São 48 catadores.

“Ainda temos dificuldade de trabalhar com esse tipo de produto por questões de saúde e por falta de instrução”,
disse Francisca Maria Araújo, uma das fundadoras da cooperativa. A associação está participando do projeto Eco-Eletro, do Instituto GEA (www.institutogea.org.br), da Universidade de São Paulo, que é um curso mensal de reciclagem de lixo eletrônico para catadores.

Outra iniciativa foi a criação da plataforma E-lixo Maps (www.e-lixo.org), da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Ela localiza pontos de descarte de lixo eletrônico mais próximos do internauta paulistano. O site também aponta alguns postos de coleta no ABC. Só é preciso informar o CEP e o tipo de produto eletrônico que deseja descartar.

“Na era da informática, os catadores precisam dominar a questão técnica”, disse o presidente da Coopercata (Cooperativa dos Trabalhadores de Mauá) Armando Octaviano Júnior. Ele defende que o catador de material reciclado precisa trabalhar em um local adequado, além de usar um equipamento de segurança para evitar contaminação ao manusear o lixo digital, que é considerado material de alto risco. “A maior parte dos catadores não sabe que esse tipo de lixo causa danos à saúde”, afirmou.

Resíduo digital gera mais renda para catadores

Armando Octaviano Júnior, 38, é catador de material reciclado há 15 anos. Em 2008, ele resolveu montar uma cooperativa de reciclagem no ABC: nasceu, então, dois anos depois, a Cooperativa dos Trabalhadores de Mauá(Coopercata).

“Uma pessoa se torna catadora porque não tem outra opção de vida”, disse ele. “Principalmente se é pobre e negro. Querendo ou não, existe, sim, preconceito no nosso país. A nossa profissão é invisível.”

Armando, conhecido como “Armandinho”, trabalha entre 10 e 12 horas por dia – às vezes mais – como presidente da cooperativa. Junto com o catador, trabalham mais 22 cooperados, sendo 13 deles mulheres.

Uma vez que o lixo coletado chega à cooperativa, é feita uma triagem (separados por tipo). Após serem prensados, os materiais estão prontos para serem armazenados para a venda.lixo eletrônico

Nos sacos de lixo, Armandinho já encontrou de tudo: computadores, CDs, telefones celulares, baterias. “O lixo eletrônico dá muito mais dinheiro do que os outros materiais”, falou.

No entanto, a Coopercata ainda não consegue lidar com esse tipo de material. Por isso, uma de suas cooperadas fará, neste semestre, o curso do Instituto GEA.

A produção de lixo cresceu seis vezes mais que a população do país, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil de 2010, produzido anualmente pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

No ano passado, quando foi criada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o Brasil produziu aproximadamente 61 mil toneladas de lixo, volume 6,8% superior ao de 2009.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas 8,2% dos municípios brasileiros fazem coleta seletiva de lixo.

Nesses 15 anos em que trabalhou como catador de material reciclado, Armandinho sentiu diferença na forma como os moradores da região lidam com os resíduos sólidos.

“A população está se conscientizando do problema do lixo”, afirmou. No entanto, segundo ele, ainda há muito trabalho para os catadores para uma melhora mais expressiva. “A nossa tarefa de conscientização ambiental é mais árdua do que a gente pode imaginar”.

No Brasil, são descartadas aproximadamente 96,8 mil toneladas de computadores por ano – quantidade inferior apenas à chinesa, que chega a 300 mil toneladas.

Sociedade deve se conscientizar para resultados

Em um galpão de Santo André, impressoras empilhadas, monitores, celulares, placas eletrônicas dentro de sacos de ráfia. Com 180 m², a Idéia Verde é uma empresa que desmonta e separa o lixo digital, antes de encaminhá-lo às recicladoras.

“A ideia de montar a empresa veio de uma necessidade”, disse Mariana Brizotto, uma das fundadoras. “As pessoas não sabem o que fazer com o lixo eletrônico. Ele não pode ir para o lixo comum, para ir parar em aterros sanitários e contaminar o solo e a água”, afirmou.

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O diretor de projetos da Secretaria de Meio Ambiente de Mauá, Valentim Caetano Filho, avalia a coleta seletiva do ABC por enquanto como pequena e desfalcada. Segundo ele, o modelo “porta-a-porta” – aquele em que o catador recolhe material em bairros – está funcionando, mas ainda é preciso trabalhar muito na questão de cooperativas de catadores de lixo.

“É preciso oficializar essa classe trabalhadora para que seja referência e ganhar confiança no bairro para que seja um agente ambiental”, afirmou.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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