Consumo colaborativo difunde troca de bens materiais
A relações públicas Juliana Pereira, 23, e sua tia Evely Monteiro costumam trocar livros e DVDs - Foto: Livia Rocha/RRJ
LIVIA ROCHA
Do Rudge Ramos Jornal*
Pegar um livro, uma peça de roupa, alguns gramas de açúcar ou uma ferramenta emprestada é parte do cotidiano das pessoas. E se a troca de objetos fosse força motriz da economia? E se a sociedade como um todo trocasse mais e consumisse menos?
Essa prática já é realidade e tem um nome: consumo colaborativo. A ideia foi criada por Rachel Botsman, consultora e escritora graduada pela Universidade de Oxford, nos Estados Unidos, e Roo Rogers, empreendedor e economista.
Durante uma apresentação no TED Sydney (uma conferência que prega a disseminação das boas ideias nas áreas de Tecnologia, Entretenimento e Design), em 2010, Rachel disse que começou a pensar em consumo colaborativo ao observar o sucesso de grandes mobilizações coletivas como os flash mobs (aglomeração espontânea de pessoas, em locais públicos para realizar uma ação inusitada, como guerra de travesseiros no Parque do Ibirapuera ou a caminhada dos “mortos-vivos” que ocorre na av. Paulista uma vez por ano), a crescente quantidade de colaborações entre empresas, designers, artistas e músicos e a onda de compartilhamento disseminado pela internet e pelos avanços tecnológicos.
Segundo ela, quatro motivos fundamentais provocaram uma mudança no comportamento do consumidor: a crise imobiliária de 2008, a preocupação com o meio ambiente, a retomada da importância da comunidade e a influência das redes sociais e a tecnologia em tempo real na interação entre pessoas.
Para Rachel, a grande disseminadora da ideia de consumo colaborativo é a chamada “geração Y”, - nome dado às pessoas nascidas depois de 1989 - que vive conectada e compartilhando experiências, sensações e, porque não, objetos.
A proposta do consumo colaborativo é simples: uma comunidade deve se juntar e realizar trocas, que impeçam o consumo desnecessário de objetos que têm uma vida útil curta.
O exemplo clássico dos adeptos da ideia é o da furadeira. Uma estimativa revela que, no geral, essa ferramenta é utilizada apenas por 15 minutos durante toda a sua vida útil. Por que não pegá-la emprestada em vez de comprá-la?
No Brasil, a tendência do consumo colaborativo chegou oficialmente com a criação do site DescolaAí.com.br. O cabeça da ideia é o engenheiro de materiais Guilherme Brammer, 34. Dono de uma empresa que cria projetos de sustentabilidade chamada GreenBusiness, ele explica que o site é apenas a ponta do iceberg. “Nós somos divididos em quatro unidades de negócio: resíduos, consumo colaborativo, negócios sociais e mídias”.
Guilherme conta que o DescolaAí é uma junção de várias ideias que já se desenvolviam fora do país, adaptadas para a realidade de consumo brasileira.
Segundo ele, por questões de segurança, foi preciso criar um mecanismo de cheque caução para aqueles usuários mais desconfiados, negociar com a empresa PayPal (criada pelo site eBay, para realizar pagamentos online) uma forma de checar o número do cartão dos usuários antes do empréstimo ou aluguel e fazer uma parceria com o Serasa para confirmar a existência dos números de CPFs cadastrados no site.
Por enquanto, as expectativas em relação ao site têm sido atingidas. De acordo com Guilherme Brammer, em dois meses no mercado, o endereço eletrônico já tem 2 mil usuários. A meta é bater 10, 15 mil usuários até o final do ano.
As trocas incluem livros, DVDs, CDs, ferramentas e até roupas e acessórios - Foto: Livia Rocha/RRJ
Além do DescolaAí, alguns outros sites também promovem a troca e/ou aluguel de coisas. Para os pais, o clubedobrinquedo.com.br possibilita a troca de brinquedos. Para os loucos por livros tem o trocandolivros.com.br. Para aqueles que são fãs assíduos de algumas bandas estrangeiras e não ligam de fazer uma forcinha financeira para trazê-los ao Brasil tem o queremos.com.br.
Vida real - Prova dessa mudança na vida dos consumidores, a família da relações públicas Juliana Pereira, de 23 anos, já incorporou o consumo colaborativo ao seu dia a dia há alguns anos e troca objetos, ferramentas, DVDs, livros e roupas tanto entre parentes quanto entre amigos. “Trocar coisas é uma prática que minha mãe me ensinou desde pequena. Na escolinha eu trocava até o lanche.”
Juliana é a responsável por reunir as amigas uma vez a cada seis meses para realizar um bazar de roupas. “Cada uma das meninas leva as peças que quiser trocar, nós organizamos as roupas em cabides e cada uma escolhe duas ou três peças”. Ela revela que algumas vezes pode dar briga. “Quando tem uma peça muito cobiçada, é um ‘Deus nos acuda’! É mulher gritando de tudo quanto é lado”.
O evento de troca serve também para colocar o papo em dia. Além de render boas risadas e se tornar um verdadeiro desfile de moda.
Na família as trocas tendem a ser menos conturbadas, mas não menos calorosas. Sempre que alguém precisa de alguma coisa, começam as ligações de telefone e trocas de e-mail para achar o objeto e tudo termina em encontro.
Como reciclar embalagens
O Brasil produz 228,4 mil toneladas de lixo por dia, segundo a última pesquisa do IBGE, realizada em 2000. Desse total, mais da metade, ou seja, 125 mil toneladas diárias, equivale ao lixo domiciliar. Mas quantos desses resíduos poderiam ser evitados?
As embalagens e os saquinhos plásticos que protegem muitos dos produtos que as pessoas normalmente consomem podem causar um grande impacto quando o assunto é meio ambiente.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostrou que 40% das 700 mil toneladas de lixo produzidas diariamente é de embalagens. Pensando nisso, a companhia The Brothers Lane desenvolveu o primeiro mercado que não utiliza pacotes para embalar seus produtos. A mercearia abriu as suas portas em junho deste ano e se chama in.gredients.
A loja incentiva que os consumidores levem seus próprios recipientes para comprar produtos orgânicos de produtores locais. A ideia é estimular a produção desses pequenos agricultores, e ainda levantar a bandeira da sustentabilidade.
Um dos pontos levantados pelos co-fundadores da in.gredients é o fato de que o atual regime de consumo incentiva a produção desnecessária de lixo, que muitas vezes nem sequer é reciclada.
No site oficial da loja, um argumento tenta convencer o consumidor de que um mundo sem embalagens pode ser mais justo: “E, para a sua desvantagem, as embalagens geralmente representam de 10% a 20% do preço do produto que você compra”.
No Brasil, a rede de supermercados Pão de Açúcar desenvolveu uma iniciativa semelhante. Eles criaram o “Caixa Verde”. A pessoa faz sua compra e, ao passar no caixa, pode descartar as embalagens que achar desnecessárias. O supermercado, por sua vez, recolhe todos os materiais descartados e os recicla.
Além disso, a mesma rede criou o primeiro supermercado verde da América Latina. A loja fica na cidade de Indaiatuba e privilegia a sustentabilidade desde a vaga do estacionamento - especial para aqueles que utilizam álcool ou gás em seus veículos – até as bandejas que sustentam os produtos, feitas de fécula de mandioca, substituindo as de isopor.
O aposentado João Bosco Mendes, 55, mora na zona Sul de São Paulo e aprova as iniciativas. “Nós estamos voltando para o passado. Antes, nós usávamos sacolas daquelas de feira para comprar arroz e feijão. O leite vinha em garrafas”.
Em sua casa, o desperdício não tem vez. João Bosco recicla todos os materiais descartados no dia a dia de sua família, formada por seu filho de 21 anos e sua mulher.
Em seu bairro, a coleta de lixo orgânico é feita três vezes por semana, e a seletiva, uma vez. O aposentado aceitou o desafio de contabilizar em uma semana o lixo produzido por sua família, e brincou: “Pela primeira vez, vou usar a balança que comprei há uns três meses”.
Ao conversar com a reportagem, João Bosco disse que a missão foi difícil. Segundo ele, sua mulher e seu filho nunca separam os resíduos. “Tenho que ficar revirando as sacolinhas, separando os materiais”.
Em cinco dias, sua família produziu 5,3 kg de lixo orgânico e 3,2 kg de reciclável. Dentre a produção de lixo reciclável, mais da metade poderia ter sido evitada. Por exemplo, a caixa que embalava a sua impressora nova. Dentro dela foi possível achar uma espécie de papelão que mantém o produto seguro dentro da caixa, plásticos que embalavam os acessórios de instalação e até mesmo arames. Todos foram jogados no lixo. (LIVIA ROCHA)
*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

