Figurinha, uma paixão que não sai de moda
A paixão pelo Botafogo fez Marcelo Urban criar um espaço virtual para trocar figurinhas - Foto: Arquivo Pessoal
RAFAEL MACHADO NOGUERA
Do Rudge Ramos Jornal*
A ansiedade pela última figurinha. Aquela vontade de mostrar para todo mundo que a sua coleção está finalizada. Ir à banca comprar envelopes se torna um ritual. Só falta uma. Ao abrir o pacotinho, a felicidade. É só colar, e com cuidado, para não ficar torto. Pronto, o álbum está completo.
Colecionar álbuns de figurinhas é uma paixão que atravessou gerações e continua no coração das pessoas. Não tem sexo nem idade. Começou no século 19, se adaptou à modernidade e hoje está até na internet. Várias técnicas já foram usadas para colar as figurinhas. Antes, era cola tradicional. A goma arábica, feita com farinha e artesanalmente, era uma alternativa mais barata.
A tradição entre as crianças é trocar e apostar no bafo. Tentar tirar o cromo do amigo. Mas não são apenas os menores de idade que fazem isso. Em ano de Copa do Mundo, engravatados com montes enormes de repetidas esperam ansiosamente para trocar e completar o álbum.
O estudante de economia Cristiano Alves Ferreira, 20, se tornou colecionador na Copa de 1998, quando tinha sete anos. “Vi alguns amigos do meu prédio trocando e fiquei com vontade de comprar.” A sensação de abrir um pacotinho não tem explicação. Ele conta que quando era criança esperava ansiosamente o intervalo das aulas, “Eu e meus amigos dizíamos: ‘Professora, já acabamos. Podemos bater figurinha?”’
Quem é mais velho também tem história para contar. A paixão do operador gráfico Fernando Camargo, 47, começou com 5 anos de idade, influenciado por irmãos e vizinhos. “Esses pequenos quadradinhos já estavam no meu DNA.” Chegou a criar uma página na internet para reunir todas as suas coleções, de modo virtual, apesar de mantê-las em papel.
O nome do site é Nosthalgia (www.nosthalgia.com.br). “O primeiro álbum que consegui foi o ‘Cavalo de Aço’ (sobre uma novela brasileira), de 1973. Já gastei um bom dinheiro com isso”. Os destaques de sua coleção são as publicações da década de 1970. Atualmente, ele não vai atrás de outros álbuns. Para ele, o contexto é outro. “Antigamente, faziam livros educativos, com outros assuntos legais. Hoje, só tem um objetivo, exclusivamente comercial”, contou
Público - Para colecionar não tem idade nem profissão. O desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Moacir Andrade Peres, 58, é um apaixonado desde a infância. A fascinação pelos cromos começou na virada da década de 1950 para 1960.
Ele reúne objetos relacionados ao esporte, especialmente das “Balas Futebol”, que foram veiculados entre 1938 e 1960. “Essa coleção apresentou uma renovação gráfica. Mostrava desenhos, caricaturas, fotografias dos atletas, charges, mascotes e lances de jogo”, disse Peres, que também é professor universitário.
Os álbuns mais antigos tinham outro atrativo: as figurinhas carimbadas. Depois de preenchidos, podiam ser trocados por prêmios. Mas muitos colecionadores decidiram conservá-los intactos, transformando-os em verdadeiras relíquias. “Tenho muitos álbuns cheios e outros incompletos. Motivação suficiente para que eu continue em busca das [figurinhas] que faltam”, afirmou o desembargador.
Peres tem figurinhas que datam de 1919. Ele não vê problema em mostrar seus itens para os outros, mas afirma que isso não é uma prática comum. “Eu acho um absurdo alguém se contentar em apreciar uma coleção de forma egoísta, qualquer que seja o tema.”
O desembargador afirmou ainda que os álbuns ajudam a preservar a história do futebol mundial. Na Copa de 1954, o álbum trazia entrevistas com os jogadores da seleção brasileira. Era possível saber até os salários dos jogadores.
Peres contou que chegou a influenciar uma advogada. Após ler uma entrevista do desembargador falando sobre figurinhas, ela relatou a ele que sentiu vontade de integrar o exército de quem coleciona.
O esporte continua sendo um atrativo para o lançamento de novas coleções. Em 2011, mais uma novidade apareceu. Os cromos da Copa do Mundo de Futebol Feminino fizeram muito sucesso na Europa, especialmente na Alemanha, local da competição. As figurinhas das mulheres foram um marco para o mercado. Porém com uma diferença em relação aos homens. O peso das jogadoras não foi revelado.
A procura foi tão grande, que a Panini teve que produzir além das 4,5 milhões de figurinhas colocadas no mercado.
Repetidas - Um dos maiores medos na hora de comprar um envelope é abrir e ver aquela figurinha repetida. A forma mais tradicional para trocar eram as reuniões entre amigos. Elas continuam comuns, mas hoje podem ser trocadas até pela internet.
Marcelo Vendas Urban, 51, é o idealizador do “TrocaFigurinhas.com”. O site tem seis anos e fornece informações para colecionadores. São mais de mil álbuns cadastrados e 57 mil participantes. O site permite a troca de cromos repetidos.
Ele contou que nunca foi apaixonado por álbuns, mas sentiu vontade de reunir informações em 2005. “O livro ilustrado do Campeonato Brasileiro veio encartado no jornal, e como o Botafogo estava bem na competição decidi fazer. Vai que ele ganhasse.” A ideia de criar o site veio da falta de opções para trocas. “Precisava de uma ajuda extra para completar.”
Após pesquisar as opções disponíveis na internet, ele percebeu que outras pessoas tinham a mesma dificuldade que ele. O analista de sistemas planejou e desenvolveu todo o site. A primeira versão, a atual é a terceira, só comportava um álbum. A procura foi tão grande que ele criou novas funcionalidades e aumentou a capacidade.
“O site virou um filho e hoje dedico boa parte do meu dia para administrá-lo”, afirmou. Ele também conta com uma coordenação para ajudar a tirar dúvidas, criar enquetes, notícias e banir maus participantes. Depois do site, Urban não fez nenhum outro livro ilustrado.
Para ele, os álbuns virtuais são interessantes e não atrapalham a venda nem o interesse de colecionadores pelos impressos. “Apesar de ser o mesmo produto, são focos diferentes e experiências totalmente distintas.”
Ele fala que a maior recompensa do site é ver as crianças ansiosas pelas cartas com as figurinhas. “Elas querem que o carteiro chegue logo. Ficam loucas quando as cartinhas chegam. É uma coisa que não tem preço. Hoje ninguém recebe e manda cartas, ainda mais com presente dentro.”
Cromos viram até objeto de estudo
Os álbuns já viraram até assunto de trabalho acadêmico. O arquiteto Paulo Cézar Goulart, 57, contou a história das figurinhas em uma dissertação de mestrado no final da década de 1980, na USP (Universidade de São Paulo).
A ideia surgiu de um trabalho de sua namorada, que contava a história do bairro Jardim Arpoador, em São Paulo. Eles decidiram fazer um álbum para narrar os acontecimentos do local, mas não encontraram literatura acadêmica sobre o assunto. Aí surgiu o desejo de Paulo Cézar por descobrir a história dos cromos.
“O primeiro passo foi fazer um levantamento mais aprofundado sobre o assunto. Achei pouco material. Fui então procurar colecionadores para ampliar o conhecimento”, contou o autor do estudo. Com o passar do tempo, ele sentiu a necessidade de divulgar a pesquisa em jornais, para recolher mais informações, o que aumentou o número de doações.
Paulo Cézar conta ainda que não se via um aficionado pelos álbuns antes do estudo, mas com a evolução da pesquisa, o seu acervo cresceu. “Em 1996, eu tinha cerca de 1.200 álbuns. Hoje não tenho muitos. Guardo cerca de 60, que têm significados mais afetivos”, disse.
Ele descobriu que as figurinhas já foram muito além do circuito comercial. Elas também já foram utilizadas em campanhas eleitorais no Brasil. “Foi usada também na Alemanha antes da Segunda Guerra, quando houve
a edição com propaganda nazista. O universo era bem mais amplo do que o imaginado”, contou.
*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

