Indústria de games deve faturar US$ 74 bi em 2011
MONIQUE DOMICIANO SUJDIK
Do Rudge Ramos Jornal*
Você já deve ter jogado Tetris ou Campo Minado pelo menos uma vez na vida. Há algum tempo os jogos eletrônicos deixaram de ser uma diversão infantil para se transformar em mania. Mais que isso, eles se tornaram uma peça importante para a área do entretenimento e para a economia mundial. A indústria dos games cresceu em diversos países, e a tendência é continuar crescendo. Segundo uma análise da empresa de consultoria Gartner, que trabalha com tecnologia, pesquisa e execução de programas, espera-se que o setor tenha um faturamento de US$ 74 bilhões até o fim desse ano, um valor 10,4% superior ao de 2010.
A indústria dos jogos eletrônicos está no topo da lista de faturamentos previstos entre as indústrias culturais até 2015. Para o economista Eduardo Lemes, o desenvolvimento geral da tecnologia é responsável pelo crescimento do mercado de jogos.
Os games estão nas mais variadas plataformas, como celulares, TVs e nas próprias redes sociais.E as pessoas vêm aderindo a essa forma de entretenimento. “Os jogos eletrônicos não são mais feitos para crianças. Temos encontrado muitos consumidores, superando já o público infantil. Essa alteração de público também contribuiu para o crescimento da área”, afirmou Lemes.
Além disso, um dos trunfos dessa indústria é a alta capacidade de faturamento com uma parcela de investimento relativamente menor, se comparada às grandes produções do cinema, por exemplo. Em 2003, o mercado de games ultrapassou o de cinema e se tornou a maior indústria de entretenimento do mundo.
Mesmo com todo o crescimento global, a produção brasileira ainda é pouco expressiva, representando apenas 0,2% no mercado mundial de jogos eletrônicos. Segundo Martin Fabichak, desenvolvedor de jogos, “cada vez mais, o vídeo game está sendo reconhecido como uma plataforma de entretenimento para todas as idades. Lá fora, essa indústria é muito reconhecida e rentável. No Brasil, já é outra história.” Aqui no pais ainda há obstáculos para um desenvolvimento maior, como a alta taxação de impostos, pouco apoio financeiro do governo e muita pirataria.
Seria impossível calcular exatamente a dimensão do fluxo pirata na nossa indústria, mas, em 2004, a Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos) estimou que 94% dos games consumidos no país consistiam em mercadorias pirateadas, e que o índice não teve muita alteração até hoje.
Para o coordenador do curso de Desenvolvimento de Games da FATEC, Álvaro Gabriele, a pirataria é o principal problema para o crescimento dessa indústria no Brasil. “Se existe pirataria, não há investimento no setor, nem estímulo à produção local. Se não há investimento, nem estímulo, é preciso importar os jogos. A importação é cara em razão da cobrança de impostos abusivos por parte do governo. Se comprar um jogo original é caro, mas as pessoas querem jogar, acabam procurando e adquirindo produtos piratas, originando um círculo vicioso, onde quem mais sai perdendo são as pessoas interessadas em fazer com que o mercado cresça, evolua e torne-se um concorrente forte para os padrões internacionais”, explicou.
Além da não absorção pelo mercado interno da produção brasileira de games, dois outros problemas têm sido levantados: em primeiro lugar, a ausência de mão de obra qualificada, que é essencial ao desenvolvimento da indústria, por ser de forte base tecnológica, na qual a inovação é fundamental para a sustentabilidade do negócio. Em segundo lugar, pela falta de empresas que possam competir com as multinacionais. Segundo Álvaro Gabriele, jogos de última geração exigem equipes grandes e altamente qualificadas. Nesse caso, no Brasil ainda há poucos profissionais qualificados para trabalhar com os grandes jogos, que necessitam de muitas técnicas de desenvolvimento. A qualificação para esse mercado no país ainda está em processo de maturação.
Consumo - O estudante Felipe Solferini é consumidor assíduo de tecnologias e jogos eletrônicos. Ele afirma que passa em média quatro horas por dia jogando. “As pessoas se interessam pela televisão, que somente assistem. Com o vídeo game, é como se você pudesse controlar o que está aparecendo na TV, então as pessoas se divertem com isso desde crianças”. Solferini fala que o jogo eletrônico é uma ótima forma de distrair as pessoas em atividades do cotidiano, como andar de transporte público ou esperar em um consultório médico.
Porém, mesmo conhecendo diversos jogos diferentes, Solferini afirma que nunca teve interesse por games produzidos no Brasil. “Os jogos nacionais ainda são muito simples comparados às grandes produções internacionais”.
Para contribuir com o desenho de instrumentos e ações de políticas industrial e tecnológica para o setor de games, o BNDES FEP (Fundo de Estruturação de Projetos do Banco Nacional do Desenvolvimento) lançou recentemente uma chamada pública relacionada ao assunto. O objetivo é financiar uma pesquisa científica que consolide as informações acerca da indústria dos jogos.
Profissão do futuro
Jovens apaixonados por games já sonharam em trabalhar com a criação de jogos. E o crescimento dessa área fez surgir novas profissões que exigem especialistas diferenciados, promovendo também o aparecimento de novas empresas.
Universidades estão abrindo cursos de desenvolvimento de jogos. No Brasil, mais de 20 instituições oferecem aproximadamente 50 cursos ligados ao desenvolvimento de games, entre online, técnicos, graduação e pós-graduação. Computação gráfica, animação, modelagem, empreendedorismo e, principalmente, programação, são alguns dos tópicos ensinados.
Na linha de produção de um jogo normalmente estão envolvidos profissionais de diferentes áreas. As principais funções são ocupadas principalmente por programadores, artistas 2D, artistas 3D, game designers e analistas de qualidade. Existem cursos que englobam desde áreas mais específicas até aqueles que possuem uma visão mais global do processo de produção de um jogo, com acompanhamento de projetos completos.
Tulio Adriano é brasileiro e atualmente trabalha nos Estados Unidos com desenvolvimento de games. Adriano afirma que, para quem quer trabalhar nessa área, criatividade, versatilidade e paixão são essenciais. “Programadores de jogos têm que lidar com situações que a maioria dos programadores de aplicativos não enfrenta, já que os jogos exigem que diversos elementos estejam ativos na tela ao mesmo tempo, cada um com seu próprio comportamento e inteligência, sem que haja perda de performance”.
O desenvolvedor de jogos, Martin Fabichak, afirma que: “Muitas pessoas querem trabalhar com jogos, mas pouquíssimas entendem realmente o que isso significa, e menos ainda estão preparados”. Além disso, muitas pessoas que pretendem seguir carreira reclamam da falta de espaço e oportunidade. Para o estudante de design de games Daniel Souza, o mercado de games no Brasil existe, porém é muito escasso ainda. “Tudo depende muito do que a pessoa quer seguir, pois existem diversas áreas dentro de uma produção de jogos”.
*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

