Obesidade infantil quadriplica nos últimos 20 anos

Segundo IBGE, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos está acima do peso

cardapioCAROLINA CENCIARELLI
Do Rudge Ramos Jornal*

O lanche consumido durante o intervalo na escola, o chocolate após o almoço ou a bolacha do café da tarde estão entre os principais fatores do aumento da obesidade infantil no Brasil. Se antes as dobrinhas dos bebês e das crianças eram sinais de saúde e causavam sorrisos nos adultos, hoje em dia despertam preocupação. A obesidade é considerada uma doença e, como tal, deve ser tratada.

Nos últimos 20 anos, o número de crianças obesas praticamente quadruplicou, segundo relatório do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).  Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009 apontaram que uma em cada três crianças de 5 a 9 anos está acima do peso recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Entre os principais fatores que colaboram para esse aumento estão: má alimentação, falta de atividade física e mudança nos hábitos das famílias. A nutricionista Vanessa Stender, 31, explica que a alimentação do brasileiro antes era baseada em feijão, frutas, verduras e legumes. A famosa pirâmide da alimentação era seguida quase que a risca. No entanto, hoje em dia, é raro ver um prato colorido, já que a alimentação está cada vez mais baseada em produtos industrializados e gordurosos.

O sedentarismo também tem papel fundamental no quadro da evolução da obesidade. O uso de aparelhos eletrônicos como se fossem brinquedos faz com que as crianças não tenham tanta atividade como antes. Desta forma, se há 20 anos brincar de pega-pega e corre-cotia era uma maneira de praticar exercícios físicos, hoje é preciso outras atividades para compensar.

É mais fácil para os pais e prazeroso para as crianças passar horas diante da televisão do que ir praticar alguma atividade física, por exemplo. Desta forma, a criança está mais propensa a ingerir alimentos não saudáveis. Assim, a televisão pode trazer outro mal: a propaganda. Os alimentos direcionados ao público infantil muitas vezes são apresentados de uma maneira divertida que provocam vontade de experimentar.

O professor de educação física Luiz Fernando Henrique, 26, acredita que o problema das propagandas vai além das imagens de guloseimas. “O corpo perfeito é sempre de uma pessoa de 20 a 30 anos na academia e nunca de uma criança realizando esportes ou com uma vida saudável”, comentou.

Para a nutricionista Vanessa isso se deve ao fato de a dinâmica familiar ter se alterado ao longo dos anos. “Os pais estão cada vez mais preocupados em atender aos desejos dos seus filhos, deixando um pouco de se atentar ao que realmente as crianças necessitam para um desenvolvimento e crescimento adequados”.

Elisete dos Anjos, 35, mãe dos gêmeos Flávio e Pedro, de 6 anos, confirma a teoria da nutricionista. Para ela, o gosto em atender aos pedidos dos filhos é inigualável. “Claro que falo não às vezes, mas entendo como é gostoso comer algo que está com vontade. Por isso, sempre satisfaço a vontade dos meninos”, disse.
Os meninos vão ao supermercado com a mãe toda semana e sempre voltam com novidades em mãos, como novas bolachas recheadas, ou lanches prontos. Elisete, no entanto, afirma que tenta compensar o abuso obrigando-os a ingerir legumes e verduras durante o almoço.

No entanto, essa “obrigação” não vale muita coisa se os pais não aderirem à alimentação saudável também. A nutricionista alerta que, por serem exemplos para os filhos, os hábitos alimentares dos pais também podem induzir aos erros na alimentação da criança. “Pais que não consomem frutas, verduras e legumes dificilmente conseguirão convencer seus filhos a consumirem, mesmo explicando que é necessário para a sua saúde, crescimento e desenvolvimento”, disse.

BalasPredisposição - A prevenção deve começar desde a gestação, porque a alimentação inadequada e nutricionalmente desequilibrada da gestante pode levar ao bebê a uma predisposição para desenvolver o quadro de obesidade, alerta a nutricionista.

Ao nascer, o bebê necessita do aleitamento materno exclusivo, como maneira de se proteger de doenças.  O leite materno é um alimento balanceado e adequado para cada fase de vida do recém-nascido até os seis meses de idade.

É cada vez mais comum o abandono do aleitamento materno antes do período correto. Isso acontece devido a vários motivos, mas o principal é a falta de tempo da mãe. Isso torna necessária a introdução de novos alimentos. Porém muitas mulheres o fazem sem orientação de um médico pediatra ou de um nutricionista. “A falta de acompanhamento resulta na oferta de fórmulas lácteas diluídas de forma incorreta e comumente adicionados de farináceos e açúcares”, contou Vanessa.

Ela ainda afirmou que é importante que a criança seja acompanhada por um especialista, para ter um melhor desenvolvimento intelectual. Além disso, com a assistência de um nutricionista, por exemplo, a criança aprenderá a escolher os alimentos pela qualidade e pode utilizar isso quando estiver na escola.

Para auxiliar as mães, e até mesmo os hospitais, a Sociedade Brasileira de Pediatria divulga boletins informativos sobre a amamentação. Neles, é possível encontrar dicas de como conciliar trabalho e aleitamento materno, entre outras coisas. Além disso, na página da internet, é possível encontrar um manual de orientação do departamento de nutrologia da entidade, que contém materiais sobre prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na escola - A instituição de ensino tem papel fundamental na formação das pessoas, complementando o que é aprendido em casa. Portanto, assim como os pais, a escola exerce grande influência na vida das crianças, principalmente durante a infância.

Por isso os professores precisam enfatizar a importância da famosa ‘hora do recreio’. Para manter as crianças informadas sobre a importância de uma alimentação balanceada é preciso ter didática e ouvir muitas reclamações. A professora da educação infantil Aline Guerra, 46, já tem experiência no assunto e afirma que, apesar de ser uma tarefa difícil, no final compensa. “É difícil porque as crianças gostam de porcarias. Mas aí a gente brinca com as imagens, com as palavras, com músicas e elas acabam aderindo ao que eu chamo de ‘nova moda’”, comentou.

Para ela, é mais fácil ensinar as crianças a comer do que aos adultos. “As crianças ainda estão maleáveis. Com elas dá para levar adiante as brincadeiras e torná-las reais. Com os mais velhos é diferente, porque eles têm vícios já. E já se acostumaram com determinados alimentos na geladeira ou no armário.”

O trabalho da escola vai além dos professores. O grande inimigo ainda é a cantina, que oferece lanches gordurosos e que deixam as crianças com água na boca. Para o efeito ser mais rápido, as lanchonetes precisariam oferecer opções de lanches mais saudáveis, como sucos naturais, frutas e salgados assados, em vez dos fritos. Apesar de algumas escolas já terem aderido à linha mais “light”, elas ainda são poucas.

Os incentivos à prática de atividade física como parte da grade curricular para as crianças também são de extrema importância para o combate à obesidade. Para o professor Luiz Fernando, se a prática da atividade for prazerosa, a criança pode trocar a comida e as horas em frente à TV, por exemplo, por uma atividade que a estimula a querer fazer mais. Por isso é necessário estar atento quanto ao gosto do seu filho e deixá-lo escolher a atividade que deseja fazer.

Alerta - Mudar os hábitos alimentares, procurar ajuda de profissionais e ter apoio escolar são considerados itens fundamentais na luta contra a obesidade e para a prevenção. No entanto, ao perceber os rumos que a vida e a alimentação da criança estão tomando é preciso ficar de olho, também, no seu lado psicológico.

A psicóloga Victoria Boni Albertazzi, 24, alerta que as crianças em geral, e não só elas, tendem a preferir algumas coisas em relação a outras. “Algumas crianças compensam em videogame, estudo. Outras encontram no comer em excesso ‘a única maneira de ter prazer’ ou ‘a única coisa de que gostam’”.

Para evitar isso, é importante ficar atento às brincadeiras realizadas com as crianças mais gordinhas ou obesas. A psicóloga alerta para que isso não ultrapasse os limites e deixe a criança isolada. Ao perceber um quadro deste, os pais e a escola devem estimular jogos e exercícios mais cooperativos, que exijam a participação de todos.

Se a maneira como as pessoas se relacionam com a criança obesa mudar drasticamente, é provável que, mais tarde, quando adulto ou antes, ela fique traumatizada. Além disso, o tratamento da doença se torna mais difícil e demorado, podendo muitas vezes, não ter tanta eficácia.

Pessoa magra é sinônimo de saúde?

É comum que, quanto mais magra, mais saúde a pessoa tem. No entanto, o entendimento popular não é o mais correto. Ao ingerir um alimento gorduroso, as pessoas devem ficar atentas para outras coisas além das calorias. A gordura, por exemplo, pode elevar a taxa de colesterol. O fato de não engordar, neste caso, se deve ao fator genético.

Estudos da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) mostram que os genes são fundamentais para determinar como será o metabolismo de um indivíduo. Um obeso pode ter o perfil metabólico de um magro, e uma pessoa magra pode apresentar o perfil metabólico de um obeso.

Para descobrir se uma criança está ou não acima do peso são necessários cálculos realizados por especialistas na área. No entanto, eles não são capazes de avaliar diretamente a quantidade de gordura corporal existente. É preciso que sejam analisados, também, outros fatores de risco, como, por exemplo, o histórico familiar ou o estado emocional.

Segundo o educador físico Eduardo Rosa de Araújo da Silva, 27, se a criança for saudável a probabilidade de ter algum tipo de doença causada pela obesidade é menor. Para ele, “as crianças que não têm uma alimentação adequada, quando adultos correm um grande risco de contraírem doenças como diabetes, hipertensão e até doenças cardíacas”.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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