Intercâmbio ajuda na profissão
BIANCA AZZARI
Do Rudge Ramos Jornal*
Domingo, 22 de agosto de 2011 Guilherme Sasso, 16, despede-se de seus pais no aeroporto de Guarulhos. O destino: Estados Unidos. O objetivo principal é estudar inglês. Mas não só. Hoje, muitos pais resolvem mandar seus filhos para um intercâmbio com o objetivo de estimulá-los a conhecer novas pessoas, lugares e culturas diferentes.
“Decidi que seria interessante tanto para a vida pessoal quanto profissional do Guilherme. Minhas amigas que colocaram seus filhos em programas de intercâmbio recomendaram bastante. Espero que ele volte com uma nova visão de mundo e, claro, mais organizado”, disse a dona de casa Beth Sasso, mãe de Guilherme.
Assim como ela, muitos pais optam pelo intercâmbio com o objetivo de “soltar” um pouco os filhos. E a atitude está ficando cada vez mais comum. As dificuldades no exterior são muitas, como aculturação, isolamento e integração, e comuns a todos que passam a viver em uma comunidade distinta – seja por um mês ou um ano. A necessidade de adaptação leva os jovens a ter uma nova noção de realidade, cidadania e responsabilidade social.
Justamente por isso que os departamentos de recursos humanos hoje levam a experiência em intercâmbio em consideração na hora de contratar novos profissionais. O fator é visto como facilidade de adaptação e de encarar novos desafios. “É excelente para o desenvolvimento como um todo, tanto profissional quanto pessoal. É o momento de exercer o direito de ir e vir e descobrir muitas coisas novas. No entanto, o jovem tem que estar preparado e ter flexibilidade para situações inusitadas”, explicou a psicóloga clínica Sueli Moreira dos Santos.
Existem programas para estudantes de qualquer nível escolar, seja no ensino fundamental e médio, universitários e pós-graduandos. A duração varia de acordo com o que se pretende estudar no exterior. Existem cursos de língua que podem ser feitos em uma semana. Frequentar o último ano do ensino médio em escolas de ensino regular no exterior, um ano. Já os mais velhos, como universitários e pós-graduandos, podem fazer cursos específicos na área em que estudam/trabalham. E a grande variedade de opções já mostra influência nos resultados.
A Belta (Associação Brasileira de Operadores de Viagens Educacionais e Culturais), que reúne as principais instituições brasileiras que trabalham nas áreas de cursos, estágios e intercâmbio no exterior, estima que em 2011 mais de 210 mil brasileiros irão viajar ao exterior para realizar algum tipo de curso. Só em julho, o aumento foi de 50% em relação ao mesmo mês do ano passado. Os dados colocam o país em lugar de destaque no mercado da educação internacional. Os principais países de destino são Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália, Espanha e França. Tudo depende do que o estudante pretende.
O aumento da demanda fez com que os preços ficassem mais acessíveis do que antigamente, e ajudou muitos pais, que, às vezes, nunca sequer viajaram para fora do país, a poder dar a oportunidade aos jovens. Foi o caso de Tayane Scott, 23, que passou um mês cursando inglês no Canadá por incentivo de sua mãe, a publicitária Liliam Pereira. “Achei que seria uma grande oportunidade de ampliar seus conhecimentos. A parte financeira pesou, é sempre o maior obstáculo, mas sempre achei que ela deveria viajar para o exterior, então parcelamos e ficou mais acessível.”
Já a professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho) Maria de Lourdes Corradi da Silva vivenciou em sua família um intercâmbio em dose dupla, com seus dois filhos, Danilo e Julia. Ele foi para a França. Ela, para os Estados Unidos. “Oferecemos as mesmas oportunidades para os dois, as escolhas foram deles. As viagens não pesaram em nosso bolso porque esse ‘investimento educacional e cultural’ já fazia parte da programação de despesa para educação de nossos filhos.”
Assim como ela, Rosângela Sasso também se programou com antecedência e conseguiu fazer com que seus dois filhos viajassem com tranquilidade. Ligia foi para o Canadá, e Maurício, para a Escócia. “Nós nos preparamos algum tempo antes, então não sentimos tanto no bolso. O investimento foi alto, mas valeu a pena. Com certeza foi uma experiência muito boa. Hoje seu inglês é fluente, o que abrirá muitas portas. Até mesmo pela experiência de vida, que, acredito, possa vir a complementar os currículos”, explicou Rosângela.
Distância - Uma das principais dificuldades no intercâmbio é lidar com a saudade. Os filhos vão, mas os pais ficam. Para eles, para os avós ou até mesmo para aquele irmão mais apegado, ficar longe é difícil e envolve muita dedicação e força de vontade.“Vou para o trabalho de dia e, à noite, para a faculdade. Por isso, mal consigo tempo para falar com a minha irmã. A convivência e as conversas estão fazendo muita falta para mim. Sei que está sendo muito legal, mas confesso que estou esperando ansiosamente que ela volte”, contou Bruno Liviero, 22, sobre sua irmã, Mayara, de 21 anos, que está na Austrália.
Antigamente, a comunicação era difícil: cartas e olhe lá. Hoje, com a tecnologia, existem diferentes formas, como e-mails, MSN, Skype. Cada família escolhe seu jeito para falar com os filhos. “Usávamos principalmente o Skype.O telefone era utilizado para pedir que eles entrassem no Skype. É meio fora de moda, mas até carta escrevíamos quando a saudade era demais”, revelou a professora Maria de Lourdes, cujos filhos ficaram fora por um ano escolar (de 10 a 11 meses). Mas a experiência foi válida. “O ganho cultural, por si só, já paga tudo: o dinheiro, a saudade.”
A psicóloga Viviane Candal, mãe de Giovana, está apreensiva. Dois dias depois da entrevista, sua filha chegaria do Canadá após uma temporada de seis meses fora, trabalhando e estudando. Ela achou que não seria muito difícil aguentar a distância, mas se enganou. “Como somos muito ligadas, a saudade foi um fato que pesou bastante. A família toda se reunia para poder falar com ‘Gio’ no Skype. Mas o que mais ajudou foi o Facebook. A rede social foi muito facilitadora para nós, e eu conseguia falar com ela praticamente todos os dias. O pessoal em casa usou bastante, até mesmo a avó criou uma conta para poder falar com a neta”.
Já a funcionária pública Selma Gambarini teve problemas com o assunto. Seu filho único, Klaus, foi passar seis semanas no Canadá e não era lá muito ligado nessas coisas. “Mal nos falávamos uma vez por semana. Ele é muito relaxado, e como o celular dele deu problema, eu ficava caçando, ligando para a casa em que ele foi hospedado, mandando e-mail. E-mail ele respondia quase todos os dias, mas não tinha aquele fator “ao vivo”, de estar falando com ele.”
Quando o filho se dispõe a ir, ele já está rompendo barreiras. Então, apesar de a saudade normalmente ser grande, é importante ressaltar que, quando os pais decidem dar a oportunidade de seus filhos fazerem intercâmbio, é necessário romper um pouco do laço e deixar o jovem livre. Ou seja, nada de chantagens emocionais e de falar coisas do tipo “mal consigo trabalhar com você longe”.
A preparação começa no lar. Se o laço de superproteção for muito grande, pode prejudicá-lo, inclusive em termos de adaptação e concentração. “A pessoa conseguiu romper um pouquinho do ‘cordão umbilical’, e, se não tiver apoio nesse momento, um controle dessa emoção, torna as coisas mais difíceis. O desapego nessas horas é importante”, reforçou a psicóloga Sueli.

