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Jovens preferem cursos tradicionais às "profissões do futuro"

24/11/2008

Quando entregaram as provas do vestibular da Fuvest, ontem à tarde, muitos jovens podem estar repetindo a história do universitário Marcelo dos Santos Fernandes, de 18 anos. Estudante de publicidade e propaganda, o curso mais concorrido deste ano, com uma relação de mais de 40 candidatos por vaga, ele confessa que no momento da escolha estava "iludido". Depois de um ano de faculdade, embora sem pensar em desistir, sua visão sobre a carreira é outra. "Na hora de escolher pensei primeiro em fazer algo em que pudesse ser bem remunerado. Depois vi que não era tão simples. Mesmo assim gostei, caso contrário já teria desistido", conta. Em nenhum momento, Marcelo se fez uma pergunta recomendada pelos especialistas aos jovens antes de tomarem uma das decisões mais importantes da vida: "Para onde o mundo está indo?"

O estudante de publicidade Marcelo dos Santos Fernandes optou pela área sem conhecer a realidade da profissão.

Embora futurólogos e especialistas em mercado de trabalho insistam em indicar as chamadas "profissões do futuro", ligadas ao meio-ambiente, à genética ou à alta tecnologia, poucos jovens brasileiros levam em conta essas previsões ou deficiências do país quando optam pela carreira. Segundo estudo do professor Naércio Menezes-Filho, da Faculdade de Economia e Administração da USP, o desempenho salarial da profissão influencia, mas a escolha ainda é bastante subjetiva. "Boa parcela da razão da demanda pelo curso ainda permanece inexplicada", afirma. Ele acredita que essa subjetividade na opção dos jovens dificulta a elaboração de políticas públicas e compromete a oferta de mão-de-obra qualificada. "O brasileiro tem uma tendência a seguir a área de humanas, mas a carência é maior em exatas", concorda Karin Parodi, sócia-diretora da Career Center.

Uma análise nos cursos mais concorridos no vestibular da Fuvest oferece algumas pistas do que anda influenciando os jovens no momento de escolha da carreira. O primeiro sinal é de que as profissões mais tradicionais, como medicina (13.379 inscritos), engenharia (12.343) e Direito (10.519), ainda são as campeãs na preferência dos estudantes. A despeito da orientação que se possa dar a essas carreiras, muitas vezes hereditárias, o país tem excesso desses profissionais, com exceção da engenharia. Um advogado pode se especializar em áreas promissoras, como direito ambiental, por exemplo, mas é raro o estudante pensar nessa estratégia. O mais comum, segundo Karin, é seguir o padrão. E o resultado, ela comprova no seu dia-a-dia: "Tem muito advogado no mercado."

O segundo sinal diz respeito às carreiras mais concorridas (ver tabela acima). Entre as dez carreiras no topo do ranking, quatro são profissões, digamos, midiáticas: publicidade e propaganda, jornalismo, audiovisual e artes cênicas. Embora as profissões tradicionais ainda serem as mais procuradas, em números absolutos, a sedução das carreiras relacionadas à mídia é significativa. "Há muita fantasia nisso, claro, um geólogo, por exemplo, não está sempre na mídia. As carreiras voltadas ao glamour acabam revelando a escala de valores dos jovens", afirma Karin que, em mais de 20 anos no mercado de orientação profissional, sabe bem o resultado disso: "Muitos vão se frustrar depois."

O jovem Marcelo é testemunha. "Metade da minha turma já desistiu da publicidade. Se tiver entrando na carreira para ganhar prêmios e aparecer na televisão, pode esquecer. Você aprende logo que é preciso ser astro só para o cliente", diz o estudante. Segundo o filósofo Renato Janine Ribeiro, essa assimetria pode ser explicada pela leniência da família. "Os pais deixam os filhos seguir uma espécie de princípio de prazer ao longo da infância e da adolescência, terceirizando sua educação ética, que delegam à escola, e só quando vão procurar uma carreira universitária é que se preocupam com seu futuro, como se futuro fosse apenas ganhar dinheiro e ter profissão e apostam numa profissionalização que os cursos universitários não dão mais", afirma ele, que também é ex-diretor da Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação. 

O grande desafio é fazer uma previsão adequada do futuro. De acordo com estudo do Instituto de Empresa Business School, de Madrid, os valores da sociedade midiática e as novas regras de criação adotadas pelos pais acabam empurrando os jovens para profissões nas quais acreditam que serão percebidos ou ouvidos. A geração Y (nascidos entre 1980 e 1995) é fruto de seu contexto. Seus pais romperam com a criação hierarquizada e adotaram artimanhas psicológicas para educar suas crianças. Depois, esses adolescentes e jovens cresceram na era da interatividade, onde ninguém tem a última palavra. Logo, tendem a valorizar profissões e funções nas quais serão também distinguidos individualmente.

Na sociedade contemporânea esta valorização é bastante percebida como "celebritização". Quando percebem que as profissões midiáticas podem não ser bem o que pensavam ocorre a frustração citada por Karin e vivida na pele por metade da turma de Marcelo. No entanto, mesmo nas profissões tradicionais, a realização parece ser cada vez mais desafiadora. Janine Ribeiro lembra que só 70% a 80% dos formados em medicina medicam, enquanto na administração ou direito a proporção dos que não exercem a profissão para a qual foi diplomada é superior a 65%. Estes dados, evidentemente, são independentes de qualquer decisão baseada na tese da profissão do futuro, mas sofrem influência do desempenho no curso e nas chances oferecidas pelo mercado após a graduação.

O problema estaria no momento da escolha? Alguns acreditam que sim. "O ideal seria que fossem analisadas as perspectivas e as carências e aí ver neste quadro do mercado de trabalho o que se adapta à vocação do jovem, unindo melhores chances profissionais e a habilidade", recomenda Karin. Já Naércio destaca a dificuldade de qualquer previsão certeira de futuro. Segundo ele, seria otimismo demais acreditar que o jovem teria a capacidade de prever de forma minimamente correta o desempenho de sua carreira em relação a todas as demais num horizonte amplo de tempo.

"O mais adequado seria crer que o indivíduo considera o passado recente e suas previsões para um curto período de tempo futuro para a qual estas são confiáveis", afirma o professor, co-autor do estudo "O impacto do desempenho da carreira no mercado de trabalho sobre a escolha profissional dos jovens". Uma curiosidade do estudo é que o desemprego demonstrou-se pouco importante para explicar a demanda para a escolha de determinada carreira.

No entanto, é neste momento - talvez daqui a alguns anos - que muitos dos candidatos da Fuvest, certamente ainda jovens, deverão fazer a verdadeira opção por uma carreira. "Aí a tal profissão do futuro e o mercado passa a ser levado em conta, na hora da mutação, é o momento que, às vezes com 30 anos, vão descobrir que escolheram errado e ainda não se acharam", diz Karin.

Segundo ela, na fase de reformulação profissional, o jovem se reencontra com as demandas do mercado e descobre que precisa ainda de muito conhecimento para obter alguma chance diante das transformações rápidas dos processos produtivos e das profissões do mundo contemporâneo. Essa realidade,cada vez mais comum, é a principal sustentação para o crescimento da tese de necessidade de uma nova formação profissional no país, capaz de evitar o desperdício de recursos financeiros na educação e de tempo na construção de mão-de-obra qualificada, que será ainda mais necessária para o desenvolvimento econômico nos anos pós-crise. "Torna-se latente a busca por um sistema de ensino superior mais flexível e que tenha condições de se adaptar continuamente às demandas da sociedade, bem como reduzir o gargalo educacional observado na educação superior brasileira nas últimas décadas, tanto no oferecimento de vagas, quanto nos custos para adquirir este nível", afirma Naércio.

Janine Ribeiro é favorável a uma mudança radical no sistema educacional e na mentalidade das famílias e dos estudantes. "A escolha de uma carreira profissional é pouco útil. Melhor é uma formação sólida, que permita à pessoa ir, depois, escolhendo profissões que podem inclusive mudar ao longo da vida. Escolher na hora do vestibular me parece uma má estratégia", afirma ele, citando como exemplo desta formação o bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do ABC, na qual o aluno constrói uma "formação" e depois define o que fazer. Talvez seja uma forma melhor de inverter as coisas: em vez de escolher a profissão do futuro, buscar conhecimento enquanto se espera por ela.


Fonte: Valor Econômico