Corrida presidencial já começa nas eleições de 2008

11/05/2008

Articulação política de quem está de olho na sucessão do presidente Lula chega aos municípios


Em cinco de outubro deste ano, quase dois milhões de eleitores do ABCD vão às urnas escolher sete novos prefeitos e os vereadores para o mandato que começa no ano que vem e vai até 2012. Ou talvez mais do que isso. Numa conjuntura em que o PT se prepara para encarar sua primeira eleição presidencial sem Lula e os tucanos racham pela primeira vez em nível nacional entre os presidenciáveis José Serra e Aécio Neves, a disputa de 2010 já pesa no cenário político local e é parte integrante do debate e até das alianças municipais.

"É uma eleição diferente, porque o Lula não vai poder concorrer. O PT precisa se adaptar a isso e resistir à pressão que os tucanos estão jogando nas eleições municipais para tentar criar um cenário menos favorável para o sucessor indicado pelo presidente", avalia Vanderlei Salatiel, presidente do PT de São Bernardo. "Somos um município rico, parte de uma Região muito rica, e que tem muita atenção da política nacional."

A cidade é uma das trincheiras mais importantes de São Paulo na briga presidencial: de um lado, Luiz Marinho (PT), ministro da Previdência Social, pode ser o primeiro a abandonar um ministério para concorrer a uma prefeitura que não é de capital. De outro, o ex-prefeito e também pré-candidato Maurício Soares (PSB) espera que seu partido intervenha no diretório municipal para impedir que a legenda apóie o PSDB – estratégia para tentar uma reaproximação com o PT e fortalecer a candidatura de Ciro Gomes (PSB-CE) como sucessor "oficial" de Lula.

Em Santo André, a candidatura de Raimundo Salles (DEM) estaria arriscada caso seu partido o force a ir para a chapa de Newton Brandão (PSDB), tudo como parte do acordo pela candidatura de Gilberto Kassab (DEM) na Capital, articulação para fortalecer a candidatura de Serra a presidente. Os Democratas de Santo André não quiseram falar com a reportagem. Já o PT gosta da história. "Achamos importante nacionalizar o debate, pois estamos bem nacionalmente. A economia vai bem, a educação, a geração de emprego", diz Tiago Nogueira, presidente do diretório.

Apesar dos esforços dos partidos, o filósofo e professor da Universidade Metodista Rodnei Antônio do Nascimento acredita que o resultado nas cidades não deve definir a eleição presidencial, mas traz prejuízo para as cidades. "O peso da sucessão de 2010 é bastante grande, mas a lógica regional é muito particular. A projeção do cenário nacional sobre o local extingue esse debate e cria alianças que podem não ser competentes no futuro", diz.

Alianças mutáveis
Em São Caetano, o pré-candidato petista Jayme Tortorello afirmou que partidos da base aliada do governo federal vêm procurando o PT na cidade, como nos casos do PMDB e do PP, do líder do governo na Câmara, Gilberto Costa (PP) – até então, homem forte do prefeito José Auricchio Jr. (PTB), opositor ferrenho do PT na cidade. "Não é nada de anormal. Buscamos o melhor para o nosso partido e temos que justificar nossas alianças para as diretorias estadual e federal", admite Costa.

Tortorello reforça que a boa avaliação de Lula influencia as coligações municipais. "A eleição é positiva se o governo federal está bem. Os partidos querem tirar proveito vencendo no maior número de municípios possível", diz.

Em Diadema, o PSB pode seguir o caminho oposto ao de São Bernardo: pode deixar a aliança com o PT para apoiar os tucanos, diferentemente do que Maurício Soares busca na cidade vizinha. Mesmo com as constantes declarações de Manoel José da Silva, o Adelson (PSB), de que o partido lançará candidatura própria na cidade, a tendência é que seja formada a aliança com o PSDB de José Augusto da Silva Ramos, pré-candidato dos tucanos. O parlamentar, no entanto, nega que as eleições de 2008 sejam influenciadas pelas de 2010. "Os vereadores estão mais perto das famílias, das atividades locais. Já as eleições de 2010 têm outra característica, a dos grandes eixos do País, como emprego, moradia, segurança nacional", disse José Augusto.

Mauá e RP
O ex-prefeito Luiz Carlos Grecco (PP), de Ribeirão Pires, vivenciou recentemente um episódio que, para ele, é efeito direto da influência das articulações para 2010. Ele alega que recebeu uma oferta de cargos para desistir de concorrer novamente à Prefeitura. "Existe claramente um ponto diferencial nas eleições deste ano. O PT não terá Lula e os tucanos estão rachados na Capital. É só pensarmos no oferecimento de cargos públicos de Salles e Dib em troca de meu apoio ao Volpi. Isso é jogo de interesse e de abuso de poder", sustenta.

O presidente do PT de Ribeirão, Manoel Marques, prefere ser mais cuidadoso com a análise. "Falar de 2010 ainda é prematuro, mas é claro que um bom resultado em 2008 será fundamental para as eleições presidenciais. O PT vai muito além do Lula, e tenho certeza que iremos vencer em 2008 e 2010", diz.

Já em Mauá, dois pré-candidatos disputam o apoio de Serra neste ano: Diniz Lopes (PSDB), que é do partido do governador e seria o nome natural de apoio na cidade, e Chiquinho do Zaíra (PSB), que conta com a intervenção da deputada estadual Vanessa Damo (PV) em seu favor. A influência tucana na cidade é reforçada para combater o ex-prefeito petista Oswaldo Dias, que volta às urnas em 2008 como favorito. "Os tucanos com certeza vêm com tudo, mas Mauá é muito petista, então não existe necessidade de o partido forçar a barra aqui. É importante criarmos um cenário que seja melhor para o sucessor do presidente Lula fazer campanha lá na frente", avalia Dias.

Colaboraram Juliana Finardi, Júlio Gardesani e Paulo Silva Jr.


Fonte: ABCD Maior