Mesmo desacelerando, faltarão gestores
A previsão de que o setor de educação superior dobraria as 72 aquisições ocorridas nos últimos 12 meses, em 2009 ficou para trás. Com a crise, o número deve cair pela metade, segundo Ryon Braga, presidente da Hoper Consultoria, especializada em educação. Quem faz aquisições recuou e está reservando mais dinheiro para o caixa. Além disso, houve a diminuição do valor dos negócios. "Os compradores não estão mais aceitando pagar ágio, como no passado", diz. Mas apesar da mudança do perfil econômico, as instituições de ensino superior vão continuar enfrentando um problema que já virou rotina há alguns meses: a falta de mão-de-obra responsável pela gestão do negócio, principalmente das universidades adquiridas em regiões distantes dos grandes centros.
Para driblar escassez de gestores, o grupo Anhanguera decidiu qualificar os próprios funcionários em administração, diz o vice-presidente acadêmico José Luiz Poli
É difícil encontrar profissionais como o carioca Mekler Nunes, diretor de marketing da Iuni Educacional, que topou deixar Curitiba (PR) para encarar um emprego novo de baixo do sol quente de Cuiabá (MT). Além da radical mudança de cidade, que do ponto de vista térmico teve um grande impacto, Nunes mudou também de segmento. Depois de passar pelas áreas de tecnologia na IBM, de marketing na Ambev e de vendas na Vivo, em cargos gerenciais, ele decidiu dar uma guinada na carreira e partiu para o setor educacional no ano passado.
A procura por um profissional com o perfil de Nunes foi iniciativa da universidade, que viu os negócios crescerem em diversas regiões após sucessivas aquisições nos últimos meses. Diante da dificuldade de encontrar pessoas que dominassem as particularidades do ramo da educação e ao mesmo tempo tivessem experiência em gestão, a escola partiu para a busca de executivos em outras verticais. Foi assim que chegou a Nunes. Não se trata de uma mudança tranqüila, como do comércio para serviços ou para o varejo. No geral, quem muda só descobre isso depois. "Em educação os processos são emperrados e existem professores que não aceitam ser liderados como funcionários", diz Braga.
No novo cenário educacional, a experiência de quem entende de gerenciamento faz diferença. "A parte acadêmica eu aprendi e ainda aprendo na prática", afirma Nunes. Mas o tempo de um ano que normalmente os profissionais tinham para se adaptar e aprender as especificidades do setor já não existe. Como a demanda é grande, eles vêm de vários setores e mergulham para aprender com as necessidades, apagando incêndios, segundo o consultor da Hoper.
Nunes, portanto, não é o único que topou o desafio de trocar de área e até de migrar para cidades longe do eixo Rio-São Paulo. As empresas buscam cada vez mais profissionais de diferentes setores para preencher as vagas em aberto. A onda de fusões e aquisições no segmento de educação e a perspectiva de consolidação já produziram efeitos na procura por executivos para atuar nas empresas da área. Estudo da DBM Consultoria, especializada em outplacement, indica que, no primeiro semestre de 2008, o segmento foi um dos 10 que mais abriu novas vagas. No mesmo período de 2007, a área de educação nem mesmo constava do ranking.
O que mais atrai profissionais para essas vagas é justamente o desafio de ser pioneiro num setor que vive uma nova realidade. O segmento foi o terceiro do mercado com mais fusões e aquisições no primeiro semestre deste ano. E mais: a estimativa é que de 15 a 20 grupos concentrarão 80% dos alunos da rede privada, que hoje é de 3,8 milhões de estudantes. Esse cenário acaba atraindo gestores de outros setores. "Quero mudar o modelo arcaico de administração para tornar os grupos educacionais bons prestadores de serviços", relata Nunes. Em alguns casos, quem aceita assumir postos gerenciais em cidades no Centro-Oeste, Norte ou Nordeste, aceita ganhar menos, porque identifica o potencial de crescimento do negócio (e possivelmente do salário) nos próximos anos, diz a sócia líder de assessoria em gestão de recursos humanos da KPMG, Patrícia Molino. "Muitas vezes é complicado encontrar as pessoas porque as empresas querem alguém com perfil e remuneração de gerente, mas que trabalhe como diretor", afirma.
Apesar do salário ter encolhido para quem migrou de outro setor, quem permaneceu na área de educação viu o salário subir. A vice-reitora da Anhembi Morumbi e diretora executiva da rede Laureate, Elisabeth Guedes, estima que, de fevereiro de 2004 para cá, os salários dos gestores tenham triplicado na empresa. "Não é porque queremos, é porque senão as pessoas boas vão embora", diz. As remunerações mensais estão na casa dos R$ 10 mil a R$ 15 mil e passou a fazer parte da rotina os bônus baseados em resultado, que podem chegar a R$ 20 mil por ano. A escassez de profissionais, segundo o professor de gestão de pessoas do Ibmec São Paulo, Francisco Ramirez, encareceu a mão-de-obra. "Quem muda de organização passa a ganhar cerca de 30% a mais", calcula.
A procura por gente especializada é tão intensa que a Per Creare, empresa de serviços de gestão de marcas, criou em maio deste ano uma divisão de "hunting" especializada no setor de educação. A diretora-executiva da companhia, Wandy Cavalheiro, conta que falta gente com vários tipos de perfis. "Existem vagas que ficam seis meses abertas", diz. Para complicar, ela explica que normalmente as escolas querem que a seleção seja feita entre profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro, pois o Sudeste para elas é sinônimo de profissionais qualificados. Os setores que mais "fornecem" profissionais para a educação, são o de varejo, telecomunicações e serviços em geral. "Complicado é tirar essas pessoas e convencê-las principalmente a mudar para o Norte ou Centro-Oeste", revela. E os grandes grupos estão realmente indo para todos os cantos brasileiros.
A Unit Educacional contratou o carioca Arthur Chrispino para ser o diretor de marketing e de geração de negócios da empresa em Aracaju (SE). A Iuni enviou um cuiabano para Primavera do Leste, no interior do Mato Grosso e outro para Macapá (AP) e há muitos outros casos, que não devem parar, pelo menos enquanto as universidades consolidam suas aquisições.
Fonte: Valor




