jun 2012 25

Metáfora Neymar, o algoritmo do Ato de Lecionar e o modelo 90/9/1 – Pensata do Professor do PPGA – Luiz Jurandir Simões de Araujo

Metáfora Neymar, o algoritmo do Ato de Lecionar e o modelo 90/9/1

Por Prof. Dr. Luiz Jurandir Simões de Araujo (Docente do PPGA) - luiz.araujo@metodista.br

Fui convidado a escrever um artigo para o blog que o professor Claro organiza. Sinto-me honrado e agradeço o convite.

Esse convite provocou-me. Pensei … pensei. Concluí que seria pertinente e relevante falar sobre o sistema educacional brasileiro: seus dilemas, brechas, forças e fraquezas. Provavelmente, a última seja sua maior característica.

Após 20 anos lecionando, acho que encontrei duas sementes, talvez as maiores, que definem e justificam algumas.

A primeira.

Pais, mães e alunos acham que professor ensina. Professor facilita, expressa e organiza conceitos, mostra caminhos, esclarece dúvidas, arquiteta soluções pedagógicas, cria situações de aprendizado. Quem aprende é o aluno. O aluno é um ator ATIVO do processo de aprendizado. Aliás, deveria ser. Não adianta o aluno achar que só aprenderá se o melhor professor da face da terra estiver na sua aula. Só aprenderá se um Neymar pedagógico lecionar. 1% é Neymar, 9% Ganso, 90% são bons jogadores.  Só o próprio dono do cérebro tem acesso a ele. Só o dono conseguirá movê-lo, agitá-lo, transformá-lo. O cérebro do professor não tem diretas conexões neuronais com os cérebros dos alunos. Os neurônios dos professores podem criar situações e apresentar conteúdos, os neurônios dos alunos devem estar dispostos a disparar pulsos, dispostos ao movimento e à transformação. Não há milagres pedagógicos. Há perseverança e empenho.

A segunda.

Os professores atuais têm rotinas de trabalho tenebrosas: dezenas de aulas por semana, dezenas de alunos por turma (quando não, centenas). Muitos com reduzidos pré-requisitos gerados no ciclo básico e intermediário. Mesmo Sísifo só tinha uma rocha.

Como esperar que o professor facilite, expresse e organize conceitos, mostre caminhos, esclareça dúvidas e arquitete soluções pedagógicas quando ele tem tantas rochas para empurrar. Algum ser humano consegue lecionar 30 ou 40 aulas por semana e atingir seus objetivos? Há rochas demais. Nem Sísifo conseguiria.

Em outros países as turmas são numerosas. Não é incomum ter turmas com 200 ou até 300 alunos nas disciplinas básicas. Mas o professor tem assistentes para ajudá-lo na correção dos exercícios, na realização de provas, etc. Ele prioriza o momento da aula, a clareza dos conceitos e a profundidade e articulação dos conceitos.

Muitos alunos de mestrado e doutorado são monitores para colaborar com o professor. Com isso o professor pode concentrar-se no conteúdo, na clareza, no material, na construção de situações de aprendizado.

Com uma estrutura professor/assistentes as turmas até podem ser maiores, o professor terá mais condições objetivas, o aprendizado será viabilizado.

Metáfora Neymar

Chamo a metáfora Neymar exposta acima de modelo 90/9/1. Muitas coisas, talvez quase tudo, nesse mundão grande sem porteira é 90/9/1. 1 é excepcional, 9 muito bom, 90 normal. Portanto, a maioria absoluta das coisas e pessoas é normal. Elas funcionam se as condições objetivas permitirem e viabilizarem. Se as condições objetivas não existem, nem adianta esperar que os objetivos sejam alcançados. Ficar proferindo discursos em nome dos objetivos é um ato vazio e ingênuo.

O algoritmo do Ato de Lecionar

Como dito acima, o ato de lecionar passa pelo desejo do aluno aprender.

Alguns falam que o professor deve motivar os alunos a aprenderem. Como motivar alguém absurdamente desmotivado? Como motivar alguém que não percebe a vantagem de estudar? Como motivar alguém com raros pré-requisitos, que viabilizariam o entendimento dos próximos degraus?

Se o aluno não exercitar o seu cérebro o professor acabará sendo um locutor de conceitos.

Para escrever este artigo idealizei um algoritmo chamado: O ato de lecionar. Dividido em passos o algoritmo Ato de lecionar é o seguinte:

Passo 1: o professor expõe o conceito, explica, dá exemplos, discute, provoca debate, cria situações de aprendizado, cria metáforas, etc, etc, etc. Se existe uma coisa que tenho certeza: 90% dos professores esforçam-se no seu papel. Tentam, mudam, procuram soluções dentro das condições objetivas disponíveis.

Passo 2: o aluno ativa e provoca seu cérebro fazendo exercícios, lendo, pensando, refletindo, tentando, acertando e errando.

Passo 3: o aluno expressa o que entendeu (respondendo exercícios, fazendo provas, escrevendo redações), mas para isso precisa de pré-requisitos.

Passo 4: o professor interpreta as brechas e erros gerados no passo 3 e a história volta ao passo 1.

Sem os pré-requisitos os alunos não assumirão seu papel no passo 2. Sem o passo 2 o professor se transforma numa versão moderna de um Sísifo pedagógico com várias rochas simultâneas.

Professores do Brasil, parabéns pela coragem, perseverança e empenho mesmo com tantas rochas e montanhas.

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Uma resposta a Metáfora Neymar, o algoritmo do Ato de Lecionar e o modelo 90/9/1 – Pensata do Professor do PPGA – Luiz Jurandir Simões de Araujo

  1. Natacha Pouget disse:

    Compartilho da ideologia proposta no artigo do prof. Luiz. Realmente o que podemos observar no ambiente acadêmico (mais precisamente na graduação),é a inversão dos valores mais tradicionais da relação educador – educando. Os apontamentos aqui feitos pelo Prof. deixam clara a situação que os professores vem encontrando: as dificuldades e as frustações decorrentes da lacuna deixada pelo ensino médio, bem como a forma como o processo está sendo conduzido.
    Claramente este texto nos leva a refletir e buscar novas práticas, nova estrutura, que permitam um reestruturação do sistema educacional, bem como nivelar por cima os alunos e haver tempo hábil para desenvolver mecanismos de apoio àqueles que precisam.

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