A literatura na era digital

Renato B Franco

Resumo


Este trabalho pretende responder à indagação “o que pode o romance hoje, na época dos “bits”imateriais e da cultura digital?” Para tanto, lança mão de dupla estratégia crítica: por um lado, examina algumas respostas a ela propostas por críticos literários; por outro, examina alguns romances de Enrique Vila-Matas, notadamente O Mal de Montano (2002) Paris não tem fim (2003) e Dublinesca (2010), que são considerados de modo imanente. Nesse tenso movimento analítico, que pode recordar a construção de uma (frágil) constelação, as respostas fornecidas pelos críticos são confrontadas com a experiência atual da construção literária e com o universo de tais romances, sempre com a esperança de que tal contraste seja capaz de revelar os impasses e problemas enfrentados atualmente pela criação literária. Nesse percurso, desponta ainda umobjetivo complementar, mas necessário: o de  identificar e interpretar os diversos  modos e procedimentos literários  a que esses romances  recorrem a fim de elaborarem, em seus frágeis corpos, uma concepção propriamente literária sobre sua situação objetiva em mundo que lhe é francamente hostil. Nessa perspectiva, o tema da morte da literatura, que comporta diferentes nuances e ocupa o primeiro plano, pode ser interpretado como uma determinação social para a criação literária atual, ainda que esta o explore de modo irônico: ou antes, como maneira de construir uma forma de resistência literária à concorrência que os novos meios expressivos, oriundos de sofisticados aparelhos tecnológicos de produção e distribuição de sons e imagens, impõem a ela, fato que restringe objetiva e constantemente o público  leitor. A conclusão, também não sem alguma ironia, aponta para um fato esdrúxulo e anacrônico: “na sociedade atual, certos mortos gozam de boa saúde”. 

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DOI: https://doi.org/10.15600/2236-9767/impulso.v23n57p61-77

ISSN Eletrônico: 2236-9767